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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O chapéu violeta...

Ou seria melhor, adoro dançar!
Hoje no serviço, dando início à semana do funcionário público, uma apresentação musical nos chamou a atenção.
Eu, que adoro dançar, não resisti e comecei a festa do lado de cá do palco.
E me lembrei de um texto que li há algum tempo e cujo autor desconheço.
Já o vi atribuído a Mário Quintana e a Cecília Meireles. A certeza que tenho é que não fui eu quem escrevi, mas ele se encaixa bem em mim, como um "chapéu violeta".

"Aos 3 anos: ela olha pra si mesma e vê uma rainha. 
Aos 8 anos: ela olha pra si e vê cinderela.
Aos 15 anos: ela olha e vê uma freira horrorosa. 
Aos 20 anos: ela olha e se vê muito gorda, muito magra, muito alta, muito baixa, muito liso, muito encaracolado, decide sair mas... Vai sofrendo...
Aos 30 : ela olha pra si mesma e vê muito gorda/ muito magra, muito alta/ muito baixa, muito liso/ muito encaracolado, mas decide que agora não tem tempo pra consertar então vai sair assim mesmo... 
Aos 40 : ela se olha.... Vê muito gorda, muito magra, muito alta, muito baixa, muito liso, muito encaracolado, mas diz: pelo menos eu sou uma boa pessoa... E sai mesmo assim... 
Aos 50 anos: ela olha pra si mesma e se vê como é...sai e vai pra onde ela bem entender... 
Aos 60 anos: ela se olha e lembra de todas as pessoas que não podem mais se olhar no espelho...sai de casa e conquista o mundo... 
Aos 70 anos: ela olha pra si e vê sabedoria, risos, habilidades, sai para o mundo e aproveita a vida... 
Aos 80 anos: ela não se incomoda mais em se olhar... Põe simplesmente um chapéu violeta e vai se divertir com o mundo... 
Talvez devêssemos por aquele chapéu violeta mais cedo..."


terça-feira, 12 de junho de 2012

Dia dos namorados

Acabei de ler, no Facebook, este lindo soneto de Elizabeth Barrett Browning, escrito para seu marido Robert Browning e  traduzido por Manuel Bandeira.
Soneto 43
"Amo-te quanto em largo, alto e profundo
Minh'alma alcança quando, transportada,
Sente, alongando os olhos deste mundo,
Os fins do Ser, a Graça entressonhada.

Amo-te em cada dia, hora e segundo:
À luz do sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não pedem nada.

Amo-te com o doer das velhas penas;
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
E a fé da minha infância, ingênua e forte.

Amo-te até nas coisas mais pequenas.
Por toda a vida. E, assim Deus o quisesse,
Ainda mais te amarei depois da morte."
Pra completar...
"Queria um abraço, aquele que proteje e te dá a certeza de não estar sozinha no mundo,mesmo que isso seja só por instantes...Queria um abraço, sabe aquele silencioso onde escutamos as batidas do coração acelerado pela certeza de poder contar com o outro...Queria um abraço, aquele que abraça minha alma e coloca as mãos sobre minhas feridas fazendo-as pararem de doer." 
Desconheço o autor, mas gostei muito!

segunda-feira, 5 de março de 2012

O lixo - Luis Fernando Veríssimo

Hoje me lembrei dessa crônica, que li há não sei quanto tempo!
Quando fui por o lixo pra fora, não resisti ao lixo das vizinhas, duas meninas bem simpáticas, com as quais não tenho muito contato, além do "bom dia" na escada e algumas palavrinhas trocadas de vez em quando!
Já me confessei uma "lixeira" assumida mas, pegar o lixo de meus vizinhos, nunca me atrevi.
Desta vez foi amor à primeira vista! E já que "lixo é domínio público"...
E nem precisei fazer nada! Selecionei o que queria e... voilà!

As flores que as vizinhas jogaram fora...

Hoje enfeitam a minha casa!

Nem acredito que algum dia foram mais bonitas!
 
Combinam com minha fruteira Ikea cheia de "coisas" achadas aqui e ali...

E com outro arranjo vindo do lixo - mais precisamente, caído de uma palmeira imperial da avenida Brasil...

Pra completar a manhã "ins-pirada", o texto do Luis Fernando:

"O Lixo

Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
- Bom dia...
- Bom dia.
- A senhora é do 610.
- E o senhor do 612
- É.
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
- Pois é...
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
- O meu quê?
- O seu lixo.
- Ah...
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
- Na verdade sou só eu.
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
- Entendo.
- A senhora também...
- Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...
- A senhora... Você não tem família?
- Tenho, mas não aqui.
- No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
- Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
- Pois é...
- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
- É.
- Más notícias?
- Meu pai. Morreu.
- Sinto muito.
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
- Como é que você sabe?
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
- Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
- Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo?
- Isso você também descobriu no lixo?
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
- É, chorei bastante, mas já passou.
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
- É que eu estou com um pouco de coriza.
- Ah.
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
- Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
- Você já está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
- Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito.
- Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
- Se eu soubesse que você ia ler...
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
- Ontem, no seu lixo...
- O quê?
- Me enganei, ou eram cascas de camarão?
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
- Eu adoro camarão.
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
- Jantar juntos?
- É.
- Não quero dar trabalho.
- Trabalho nenhum.
- Vai sujar a sua cozinha?
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.- No seu lixo ou no meu?"

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

No frigir dos ovos

Recebi por e-mail, este texto anônimo.
Fiz algumas pesquisas e só encontrei como autor, Guaraci Neves. Não sei se procede, pois não encontrei outra referência a essa pessoa, mas acho que vale dividir com vocês, deixando claro que, pelo menos, eu não sou a autora!!!!

"Alguém sabe me explicar, num português claro e direto, sem figuras de  linguagem, o que quer dizer a expressão “no frigir dos ovos”?
Quando comecei, pensava que escrever sobre comida, seria sopa no mel, mamão com açúcar. Só que depois de um certo tempo dá crepe, você percebe que comeu gato por lebre e acaba ficando com uma batata quente nas mãos.
Como rapadura é doce mas não é mole, nem sempre você tem idéias e pra descascar esse abacaxi só metendo a mão na massa.
E não adianta chorar as pitangas ou, simplesmente, mandar tudo às favas.
Já que é pelo estômago que se conquista o leitor, o negócio é ir comendo o mingau pelas beiradas, cozinhando em banho-maria, porque é de grão em grão que a galinha enche o papo.
Contudo é preciso tomar cuidado para não azedar, passar do ponto, encher linguiça demais. Além disso, deve-se ter consciência de que é necessário comer o pão que o diabo amassou para vender o seu peixe. Afinal não se faz uma boa omelete sem antes quebrar os ovos.
Há quem pense que escrever é como tirar doce da boca de criança e vai com muita sede ao pote.
Mas como o apressado come cru, essa gente acaba falando muita abobrinha; são escritores de meia tigela, trocam alhos por bugalhos e confundem Carolina de Sá Leitão com caçarolinha de assar leitão.
Há também aqueles que são arroz de festa, com a faca e o queijo nas mãos, eles se perdem em devaneios (piram na batatinha, viajam na maionese…etc.). Achando que beleza não põe mesa, pisam no tomate, enfiam o pé na jaca, e no fim quem paga o pato é o leitor que sai com cara de quem comeu e não gostou.
O importante é não cuspir no prato em que se come, pois quem lê não é tudo farinha do mesmo saco. Diversificar é a melhor receita para engrossar o caldo e oferecer um texto de se comer com os olhos, literalmente.
Por outro lado se você tiver os olhos maiores que a barriga o negócio desanda e vira um verdadeiro angu de caroço. Aí, não adianta chorar sobre o leite derramado porque ninguém vai colocar uma azeitona na sua empadinha, não. O pepino é só seu, e o máximo que você vai ganhar é uma banana, afinal pimenta nos olhos dos outros é refresco…
A carne é fraca, eu sei. Às vezes dá vontade de largar tudo e ir plantar batatas. Mas quem não arrisca não petisca, e depois quando se junta a fome com a vontade de comer as coisas mudam da água pro vinho.
Se embananar, de vez em quando, é normal, o importante é não desistir mesmo quando o caldo entornar. Puxe a brasa pra sua sardinha, que no frigir dos ovos a conversa chega na cozinha e fica de se comer rezando. Daí, com água na boca, é só saborear, porque o que não mata engorda."

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

La femme mûre


Je ne sais pas qui a écrit ça mais, je suis tout à fait d'accord!
Et je suis fière de pouvoir dire que je suis une FEMME MÛRE... 

...qui pleure à couper des oignons!











La femme mûre ne prend rien, elle touche.
Elle ne provoque pas, elle est provocatrice.
elle n’est pas simplement  intelligente, elle est  sage.
elle ne s’insinue pas, elle  montre subtilement le chemin.
elle n’est pas pressée, elle attend le bon moment
elle ne vole pas, elle flotte.
elle ne pense pas à la quantité, elle préfère la qualité.
elle ne regarde pas, elle observe.
elle ne marche pas, elle se promène.
elle ne dort pas , elle s’endort.
elle n'est pas prétentieuse, elle s’aime, simplement.
elle ne juge pas, elle analyse.
elle ne compare pas, elle comprend.
elle ne console pas, elle berce.
elle ne se réveille pas, elle s’éveille.
elle ne met des menottes, elle nous laisse libres.
elle ne fait pas de sortilège, elle enchante.
elle n'est pas déterminée, simplement, elle sait ce qu’elle veut.
elle n'est pas exigeante, elle est sélective.
elle ne se plaint pas, elle essaye de faire différemment.
elle n’a pas peur, elle s’inquiète.
elle ne fait pas de promesses, elle laisse passer le temps.
elle ne fait aucune conclusion, elle fait des hypothèses.
elle ne perd pas son allure, elle est complaisante.
elle ne brille pas, elle est illuminée.
elle n'aime pas être surveillée, elle préfère être protégée.
elle n'est pas moderne, elle est élégante.
elle ne veut pas être convoitée, elle préfère être désirée.
elle n’estime pas, elle aime !

domingo, 20 de novembro de 2011

Poesias curtas...

Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...
Vinícius de Moraes




Deus nos dá pessoas e coisas,
para aprendermos a alegria...
Depois, retoma coisas e pessoas
para ver se já somos capazes da alegria
sozinhos...
Essa... a alegria que ele quer
João Guimarães Rosa

sábado, 3 de setembro de 2011

Vou-me embora pra Pasárgada

Pegando carona com Manuel Bandeira, mas só pra dizer que estou indo pro meu Canto do Tico-tico. 
Lá não sou amiga do rei, sou a própria rainha! 
Uma semana inteira pra eu fazer o que quiser. Até ficar sem fazer nada, se me der vontade!
E pra relembrar, aí vai como despedida, o poema anunciado: 


"Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada." 
Manuel Bandeira

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

No caminho com Maiakóvski

Nem me lembro mais quando foi que li, pela primeira vez, o trecho em vermelho deste poema que foi por muito tempo atribuído ao escritor russo Maiakóvski mas foi, na verdade, escrito pelo brasileiro Eduardo Alves da Costa.
Transcrevo aqui todo o poema, lembrando ainda que foi escrito em 1964, em plena ditadura militar.

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne a aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
             o coração grita - MENTIRA!
 

Eduardo Alves da Costa

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A flor do maracujá


Encontrando-me com um sertanejo
Perto de um pé de maracujá
Eu lhe perguntei:
Diga-me caro sertanejo
Porque razão nasce roxa
A flor do maracujá?

Ah, pois então eu lhi conto
A estória que ouvi contá
A razão pro que nasci roxa
A flor do maracujá

Maracujá já foi branco
Eu posso inté lhe ajurá
Mais branco qui caridadi
Mais brando do que o luá

Quando a flor brotava nele
Lá pros cunfim do sertão
Maracujá parecia
Um ninho de argodão

Mais um dia, há muito tempo
Num meis que inté num mi alembro
Si foi maio, si foi junho
Si foi janero ou dezembro

Nosso sinhô Jesus Cristo
Foi condenado a morrer
Numa cruis crucificado
Longe daqui como o quê

Pregaro cristo a martelo
E ao vê tamanha crueza
A natureza inteirinha
Pois-se a chorá di tristeza

Chorava us campu
As foia, as ribera
Sabiá também chorava
Nos gaio a laranjera

E havia junto da cruis
Um pé de maracujá
Carregadinho de flor
Aos pé de nosso sinhô

I o sangue de Jesus Cristo
Sangui pisado de dô
Nus pé du maracujá
Tingia todas as flor

Eis aqui seu moço
A estoria que eu vi contá
A razão proque nasce roxa
A flor do maracujá.

Catulo da Paixão Cearense

sábado, 11 de junho de 2011

Laços de Afeto - Mário Quintana


Minha amiga Simone, "traça de biblioteca" (no melhor sentido da expressão), publicou ontem no facebook, essa pérola do Mário Quintana. 
Não resisti: tenho que dividir com vocês!
Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço... Uma fita dando voltas.
Enrosca-se, mas não se embola. Vira, revira, circula e pronto: está dado o laço.
É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço.
É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo, no vestido, em qualquer coisa onde o faço.
E quando puxo uma ponta, o que é que acontece? Vai escorregando...
Devagarzinho, desmancha, desfaz o abraço.
Solta o presente, o cabelo, fica solto no vestido.
E, na fita, que curioso, não faltou nem um pedaço.
Ah, então, é assim o amor, a amizade, tudo que é sentimento.
Como um pedaço de fita enrosca, segura um pouquinho,
Mas pode se desfazer a qualquer hora,
Deixando livre as duas bandas do laço.
Por isso é que se diz: laço afetivo, laço de amizade.
E quando alguém briga, então se diz: romperam-se os laços.
E saem as duas partes, igual meus pedaços de fita, sem perder nenhum pedaço.
Então o amor e a amizade são isso...
Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam.
Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço! 

 
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